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Viagem de Moto de Melo a Treinta y Tres: Mirante do Cerro Largo, Patrimônio Geológico e Paisagístico do Uruguai
1 de Agosto, 2022
Explore o centro histórico de Melo, capital de Cerro Largo, visite o Parque Zorrilla de San Martín e encare uma viagem de moto pela Ruta 8 até Treinta y Tres. No caminho, admire o Cerro Largo, patrimônio geológico e paisagístico do Uruguai.
Começamos a segunda-feira saboreando um mate amargo na histórica Plaza Constitución, no coração de Melo, capital do departamento de Cerro Largo, no Uruguai, e seguimos para o Parque Zorrilla de San Martín, às margens do Arroyo del Sauce, onde se destaca a famosa escultura La Fuente de los Sapos. Depois de nos despedirmos da cidade, pegamos a Ruta 8 sob uma neblina inesperada, que reduziu a visibilidade e nos impediu de observar o Cerro Largo, formação natural que dá nome ao departamento. Já em território de Treinta y Tres, passamos por momentos de tensão ao quase enfrentarmos uma pane seca, mas conseguimos chegar a um posto de combustíveis nos últimos suspiros da Formosa, encerrando um dia marcado por imprevistos, descobertas e pela hospitalidade do interior uruguaio.

Buen Día, Melo! Despertamos nas primeiras horas da segunda-feira, após uma noite tranquila de descanso na capital departamental. Preparamos um chimarrão especial de primeira, separamos algumas frutas e seguimos caminhando até a Plaza Constitución, no coração da cidade.

Entre os diversos bancos disponíveis, escolhemos um para desfrutar calmamente nosso café da manhã (bananas e mandarinas) enquanto as ruas de Melo começavam a ganhar vida. Aproveitamos o momento para observar o movimento dos moradores e sentir o clima pacato que caracteriza a cidade.

A Plaza Constitución é um ponto histórico central, palco da vida urbana e social de Melo. Sua paisagem arborizada, com bancos, caminhos e atmosfera tranquila, nos acolheu de forma silenciosa e inspiradora. Ali, sentimos a essência de uma típica cidade do interior, onde o tempo parece seguir em um ritmo próprio, mesmo se tratando de uma capital departamental.

Fundada em 27 de junho de 1795, Melo nasceu por ordem do capitão espanhol Agustín de la Rosa, a mando do vice-reinado, e recebeu esse nome em homenagem ao então vice-rei Pedro Melo de Portugal. Desde seus primeiros anos, a cidade desempenhou um papel estratégico como vila de guarda fronteiriça, controlando o avanço português, o contrabando e a extração irregular de gado. Com o passar do tempo, transformou-se em um importante centro comercial e de serviços da região, função que mantém até hoje.
A arquitetura colonial preservada e o traçado urbano tradicional das ruas centrais reforçam esse charme histórico que nos conquistou logo na chegada. A combinação de história, simplicidade e acolhimento faz de Melo um destino especial para quem busca contato genuíno com a cultura local.

Depois do nosso mate matinal, retornamos à hospedagem para organizar os equipamentos, carregamos a moto e deixamos o centro da cidade. Em poucos quilômetros, chegamos ao Parque Zorrilla de San Martín, às margens do sereno Arroyo Conventos, também conhecido como Arroyo del Sauce.

O Parque Zorrilla de San Martín, na cidade de Melo, é amplo, arborizado, bem cuidado e oferece bancos, decks, áreas sombreadas e espaços ideais para descanso. Caminhamos por suas alamedas observando detalhes que o transformam de uma simples área de lazer em um verdadeiro recanto histórico.

Entre esses elementos, destaca-se a Fonte dos Sapos (La Fuente de los Sapos), escultura em pedra calcária criada em 1895 por Manuel Brigante em homenagem ao centenário da fundação de Melo. O monumento é tão simbólico para a cidade que a célebre escritora e poetisa uruguaia Juana de Ibarbourou, nascida ali, dedicou a ele o conto La Fuente de los Sapos, presente no livro Chico Carlo.

O parque abriga ainda o Teatro Municipal de Verano, um espaço cultural a céu aberto com capacidade para cerca de 3.000 pessoas, onde são realizadas apresentações e eventos ao longo do ano.

Há também dois pátios espanhóis decorados com azulejos originais, além de antigas máquinas e equipamentos, como uma aplanadora a vapor, que ajudam a preservar parte da história local.

Foi uma visita que nos aproximou ainda mais da cultura e do cotidiano de Melo, uma pausa perfeita antes de voltar à estrada.

Deixamos a cidade e seguimos com a Formosa pela Ruta 8. Alguns quilômetros depois, o tempo mudou drasticamente: uma neblina densa tomou conta da paisagem, reduzindo a visibilidade e tingindo tudo de cinza.


Paramos no Mirador Cerro Largo, às margens da rodovia, um ponto estratégico para observar o morro que dá nome ao departamento. No entanto, o nevoeiro não deu trégua e impossibilitou completamente a vista do famoso Cerro Largo.

Mesmo assim, refletimos sobre a importância geológica e paisagística da região, parte das Sierras del Este, um conjunto serrano que se inicia na costa sul, na chamada Sierra Ballena, e se estende por todo o leste uruguaio. Em alguns trechos, essas formações revelam rochas originadas em antigos ambientes fluviais, deltáticos ou glaciais, registros de milhões de anos que guardam a história natural do país.
Com vento forte e frio cortante, fizemos uma pausa rápida: saboreamos uma laranja e nos aquecemos com um chá aromático de cacau, cravo e cascas de laranja. Simples, mas perfeito para recuperar o ânimo na estrada.

De volta à Ruta 8, a neblina começou a se dissipar gradualmente, e logo cruzamos a estreita ponte sobre o Arroyo Parao, que marca a transição entre Cerro Largo e o departamento de Treinta y Tres.


Já em Treinta y Tres, continuamos pela rodovia nacional, que se apresenta em bom estado, com retas longas, curvas suaves, aclives tranquilos e pouco tráfego, um cenário quase bucólico para quem viaja de moto.

Tudo corria bem até que a Formosa deu sua primeira engasgada. Olhei imediatamente para o painel: lá estava a temida luz laranja da reserva acesa, acompanhada da mensagem “LO RNG”. Foi quando me dei conta de que o último abastecimento havia sido ainda no Brasil, em Jaguarão, e a gasolina estava no fim, um baita descuido.

Poucos metros adiante, outra falha. Estávamos próximos de uma propriedade rural, então parei no acostamento. Consultamos o Google Maps: o próximo posto ficava a cerca de 13 km, já na cidade de Treinta y Tres.

Agitei a moto para frente e para trás, tentando movimentar o pouco combustível restante no tanque. Virei a chave e, para nossa sorte, a Formosa ligou. Seguimos devagar, entre trancos, torcendo para que cada gota de gasolina nos levasse o mais longe possível.

Foram 10 quilômetros tensos até avistarmos a tão sonhada placa indicando Treinta y Tres. A menos de 2 km do posto, a moto engasgou três vezes antes de apagar completamente.

Sayo decidiu seguir a pé, mas insisti em tentar mais uma vez: balancei a moto, virei a chave… e, milagrosamente, a Formosa voltou à vida.

Logo chegamos a uma ampla rotatória, onde avistamos a placa luminosa de uma estação de serviços da Ancap, que mais parecia uma miragem. A Formosa resistiu heroicamente e, graças a uma leve descida, deslizou suavemente até parar junto à bomba.

Foram abastecidos 18,854 litros de gasolina. Confesso que até hoje fico na dúvida se os 46 mililitros restantes estavam perdidos em algum ponto do motor ou se o frentista, percebendo algo fora do comum, preferiu encerrar o abastecimento para evitar vazamentos, algo que acontece com certa frequência.

O feito histórico da Formosa merecia uma celebração (já quem havia esquecido de abastecer, nem tanto). Para marcar o momento e aliviar a tensão, compramos um alfajor, um bocadito, duas medialunas, quatro empanadas e café com leite. Uma comemoração simples, mas simbólica: a Formosa viva, nós aliviados e a viagem seguindo em frente.

Apenas para registro: o trecho entre Melo e Treinta y Tres tem pouco mais de 110 km, sem qualquer posto de combustível ao longo do percurso. Naquele dia, pagamos 80,88 pesos uruguaios por litro de gasolina Super 95 octanos, cerca de R$ 10,40 na cotação da época.

Com o tanque cheio e o coração tranquilo, seguimos até o centro de Treinta y Tres e estacionamos próximo à Plaza 19 de Abril, a principal praça da cidade.

Enquanto caminhávamos por ali, em uma cidade conhecida como berço de cantores, escritores e artistas plásticos de reconhecimento internacional, fomos abordados por um senhor acompanhado de sua netinha, atraídos, claro, pela Formosa.

Tratava-se de Ricardo Machado, escritor e integrante da tradicional dupla musical Los Yaraví de Uruguay. Conversamos por alguns minutos, em um daqueles encontros espontâneos que enriquecem qualquer viagem.

Em seguida, exploramos os arredores e visitamos a Parroquia San José Obrero, a Jefatura de Policía de Treinta y Tres e a Intendencia Departamental de Treinta y Tres, onde funciona o centro de atendimento ao turista. Ali, buscamos informações sobre a Quebrada de los Cuervos y Sierras del Yerbal, destino que despertou imediatamente nossa vontade de visitar e acampar.

Descobrimos que o Parque Municipal Quebrada de los Cuervos funciona de quinta a domingo e, como era segunda-feira, não fazia sentido seguir até lá naquele momento. Ainda assim, a ideia já havia nos conquistado.

Agradecemos o atendimento cordial dos funcionários e retornamos à praça. Enviamos uma mensagem aos amigos Álvaro e Mery, do balneário Lago Merín – Río Branco, avisando que havíamos chegado bem. Eles logo responderam com o contato de sua amiga Rosário, que gentilmente nos ofereceu hospedagem em sua casa, El Ranchito, na capital departamental.

Com o fim da tarde se aproximando, compramos um iogurte natural com morangos e mirtilos para comer antes de seguir até a casa de Rosário. Fomos recebidos com simpatia, abraços e muita hospitalidade, aquela essência uruguaia que sempre nos encanta.

Acima está o mapa com o trajeto percorrido entre Melo, capital do departamento de Cerro Largo, e Treinta y Tres, capital do departamento de mesmo nome, no Uruguai.

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