Brasil • Expedição 2022: Uruguay
Primeiros Quilômetros da Moto Expedição 2022: Viagem de Moto de União da Vitória (PR) a Pelotas (RS)
22 de Julho, 2022
Vivencie os três primeiros dias da Moto Expedição 2022, percorrendo estradas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Uma viagem de moto com proposta singular: um período sabático sobre duas rodas, sem destino definido e sem data para voltar.
Na manhã fria e úmida de 22 de julho de 2022 iniciamos a Moto Expedição 2022, desta vez uma viagem de moto totalmente diferente das anteriores: um período sabático sobre duas rodas, sem roteiro definido, sem destino final e sem data para voltar. Logo nos primeiros metros enfrentamos um imprevisto com o freio traseiro da Formosa, mas o problema foi resolvido rapidamente e seguimos viagem, rodando cerca de 240 quilômetros pelos três estados do Sul do Brasil até chegar a Erechim (RS), a “Capital da Amizade”, onde passamos a noite de sexta-feira na companhia de amigos. No sábado seguimos até São Leopoldo (RS), e no domingo subimos e descemos a Serra Gaúcha pela cênica Rota Romântica. Já na segunda-feira retomamos a BR-116, cruzamos a Nova Ponte do Guaíba em Porto Alegre e concluímos o dia chegando a Pelotas (RS) ao entardecer.

A Moto Expedição 2022 começou de uma forma bastante diferente das edições anteriores. Desta vez, não há rota definida e nem previsão de retorno: decidimos tirar um período sabático, sem destino fixo, sem roteiro e sem data para voltar. É uma viagem de moto pura, guiada apenas pelo desejo de explorar, sem cronograma.

Após pedir demissão de nossos empregos, doamos e vendemos praticamente todos os nossos pertences (roupas, móveis, eletrodomésticos, eletrônicos) e entregamos as chaves do apartamento que alugávamos em Erechim (RS). Ficamos com uma única moto, a Formosa, uma barraca, equipamentos de camping, algumas mudas de roupa e, claro, a cuia de chimarrão (item vital). Tudo o que temos agora cabe (de forma, digamos, “espremida”) nos alforjes da Formosa e numa mochila no bagageiro.

Com tudo isso pronto, fomos visitar nossos pais para compartilhar a surpresa. A reação deles foi menos empolgada do que a nossa, mas já esperávamos isso, não é todo dia que alguém decide largar tudo para sair pelo mundo de moto.


Antes de partirmos, fizemos algo simbólico: cortamos o cabelo que estávamos deixando crescer há dois anos. Passamos a máquina no zero e doamos os fios para uma instituição sem fins lucrativos que confeciona perucas naturais para crianças com câncer. Em seguida, doamos sangue, uma prática voluntária da Sayo, que faz questão de doar três vezes por ano.

Definimos então que partiríamos no sentido sul, com a intenção de cruzar fronteiras. Queríamos, o mais rápido possível, sair do Brasil e adentrar no Uruguai, mas sem decidir exatamente por qual fronteira entrar ou qual estrada usar.

A data de partida foi escolhida de forma quase simbólica: 22/07/2022. Além da harmonia numérica (22/7/22), essa data celebra os 40 anos da Sayo, um marco pessoal perfeito para começarmos essa nova fase.

O ponto de partida foi igualmente significativo: a Praça do Contestado, que marca a divisa entre União da Vitória (PR) e Porto União (SC), as chamadas cidades “Gêmeas do Iguaçu”. A escolha é especialmente simbólica porque a Sayo nasceu em União da Vitória, e eu em Porto União.


Na manhã fria e úmida de 22 de julho, sob neblina espessa e garoa fina, carregamos a Formosa com nossos pertences, vestimos nossas roupas de viagem, nos despedimos dos familiares e nos dirigimos à praça cortada pela linha férrea, onde está o marco divisório entre Paraná e Santa Catarina.

Caminhamos pela praça, registramos fotos, colocamos as capas de chuva (a garoa se intensificava) e ligamos a moto. Zero no hodômetro. Ao pisar no pedal do freio traseiro para partir, percebemos algo estava errado: cadê o freio traseiro?

Normalmente, uso o freio traseiro levemente para equilibrar a moto nos primeiros metros, especialmente em baixa velocidade (a Formosa é pesada, com mais de 350 kg). Mas notei que algo não se encaixava. Para nosso espanto, uma das pastilhas de freio estava prestes a se soltar, sustentada apenas por um parafuso frouxo.

Foi uma baita sorte não termos perdido a pastilha, ou o parafuso (que, imagino, seria difícil de repor). Peguei nossas ferramentas, mas logo notei que nossa pequena chave Torx T40 não daria conta, pois o outro parafuso estava espanado e resistente.


Com o celular em mãos, ligamos para nosso amigo motociclista de União da Vitória, o Arno, que nos indicou uma oficina de confiança. Reacendemos a moto e rodamos poucos quilômetros, confiando apenas no freio dianteiro. Chegamos na oficina Mene Motosports, onde Jhonatan e Ezequiel nos atenderam prontamente. Quando explicamos que estávamos iniciando uma viagem longa, deram prioridade para a Formosa.

Eles se dedicaram com paciência para soltar o parafuso rebelde, que estava espanado e teimava em ceder. Foram algumas horas até finalmente conseguirmos recolocar a pastilha no lugar, com cuidado, sem danificar nada. É impossível não pensar que tudo isso aconteceu por uma razão: se o problema tivesse surgido no meio de uma estrada deserta, poderia ter sido bem mais complicado. Tivemos sorte, e suporte.

Já passava do meio-dia quando nos despedimos das Gêmeas do Iguaçu com a moto em ordem. A Formosa agora estava pronta para rodar com freio traseiro funcional. Sem destino fixo, seguimos para o sul. Havia pensado em pegar a BR-116 em direção ao Rio Grande do Sul, mas percebemos que o universo nos dava sinais, e decidimos virar o guidão para a BR-153, a famosa Rodovia Transbrasiliana.

Pela BR-153, rodamos cerca de 240 km, partindo de União da Vitória (PR), atravessando Santa Catarina e chegando a Erechim (RS), enquanto o sol se punha no horizonte.


Na “Capital da Amizade”, como é carinhosamente chamada Erechim (RS), fomos direto para a oficina Guima Custom Motorcycles, onde nosso amigo Guima (especialista em Harley-Davidson e muito familiar com a Formosa) já nos esperava para resolver de vez a questão do freio traseiro.

Com a ferramenta certa, Guima retirou rapidamente o parafuso espanado e o trocou por outro mais confiável. Assim, se tivermos problema parecido no futuro, a solução será mais fácil. Valeu demais, Guima!

À noite, fomos acolhidos pelos amigos Juli, Dirceu e Matheus. Quando souberam que estávamos em solo gaúcho, nos convidaram para passar a noite com eles. Que recepção calorosa, deliciosa comida, risadas, pernoite e até disputa no videogame. Muito obrigado por tudo!

Abaixo o mapa com o trajeto percorrido no dia entre Porto União (SC) e Erechim (RS).


Ao amanhecer de sábado, despertamos para um café da manhã preparado por eles. Nos despedimos com abraços e retomamos a estrada, saindo de Erechim pela ERS-135, bem cedo.

A ERS-135 apresentava pouco tráfego e estava em boas condições. Em cerca de 79 km, chegamos a Passo Fundo, onde contornamos a cidade para acessar a RS-324. Dali em diante percorremos um trecho muito prazeroso: a rodovia é sinuosa, sem acostamento, cercada por campos ondulados e trechos de mata nativa, um deleite para quem viaja sobre duas rodas.

No percurso, passamos por Marau e Vila Maria, onde fizemos uma pausa para um almoço simples, mas revigorante: frutas frescas (bananas e bergamotas), rosca de polvilho e suco de uva integral. Essas paradas espontâneas são parte da magia de viajar sem roteiro.

Reprendemos a viagem pela RS-324, deixando para trás Casca, Nova Araçá e Nova Bassano. Logo chegamos a Nova Prata (RS), de onde pegamos a BR-470, cruzando Vila Flores e Veranópolis. Em Veranópolis (RS), fizemos uma nova parada no Belvedere do Espigão.


O Belvedere do Espigão oferece uma vista deslumbrante: é possível enxergar parte do Vale do Rio das Antas, a Casa de Máquinas da Usina Hidrelétrica Monte Claro, a histórica ponte da estrada de ferro e uma curva em ferradura do rio, que integra a bacia do Rio Uruguai. A paisagem impressiona, há uma harmonia entre natureza, engenharia e história.

De um lado do mirante está Veranópolis (RS), conhecida como o “Berço Nacional da Maçã” e também famosa como “Terra da Longevidade”; do outro, Bento Gonçalves (RS), a “Capital Brasileira do Vinho”. No local há restaurante e lanchonete, onde nos aquecemos com um café e uma tortinha artesanal de morango.

Tínhamos sorte ainda: avistamos um tucano elegante sobrevoando as árvores. Ele era rápido demais para a câmera, mas o momento ficou guardado na memória.

Enquanto deixávamos o mirante, uma garoa sutil começou a cair, tão leve que nem colocamos as capas de chuva. Descemos da Serra de Veranópolis pela BR-470, entrando de vez na Serra Gaúcha, um trecho que alterna vinhedos, pequenas propriedades e trechos de mata nativa, cenário perfeito para quem viaja de moto e valoriza curvas e paisagens.


Passamos por Bento Gonçalves, terra do vinho e do enoturismo, depois por Garibaldi e Carlos Barbosa, municípios conhecidos pela indústria metalúrgica e pela forte presença da cultura italiana e germânica na arquitetura e na gastronomia locais.

Após cruzar esses municípios, acessamos a RS-446 e rodamos cerca de 20 km até São Vendelino, onde pegamos a RS-122, estrada duplicada e com cobrança de pedágio em alguns trechos. A noite já caía quando chegamos a São Leopoldo (RS), onde fomos recebidos por amigos para passar a noite.

Abaixo o mapa com o trajeto percorrido no dia entre Erechim (RS) e São Leopoldo (RS).

No dia seguinte, por volta do meio-dia, trocamos abraços com Jaque, Rafa e o pequeno Arthur, nossos anfitriões, e retomamos a estrada com gratidão por tanta hospitalidade.


Embora nosso plano inicial fosse seguir sempre para o sul, a proximidade da Rota Romântica Gaúcha nos seduziu, e decidimos mudar a rota: pegamos a BR-116 em sentido norte para atravessar a deslumbrante serra.

A Rota Romântica do Rio Grande do Sul é um roteiro cênico inspirado na “Romantische Straße” da Alemanha. Oficializado no meio dos anos 1990, ele homenageia a herança cultural dos imigrantes alemães na região. Na arquitetura enxaimel, nos cafés coloniais e nas festas típicas, percebe-se a influência germânica, traços que atraem visitantes o ano todo.

É um roteiro que concentra história, cultura e belas estradas em pouco espaço, e já havíamos passado por trechos dela na Moto Expedição 2020: Belas Rotas. Aliás, a Rota Romântica é frequentemente destacada nas listas das estradas mais bonitas do Brasil. Optamos pela segurança e pelo descanso — a estrada pode esperar.

Por ser domingo, o fluxo de veículos estava intenso (muitas motos, carros e turistas) e avançar lentamente pelas curvas da serra exigiu atenção redobrada. O trecho de pouco mais de 60 km entre São Leopoldo e Nova Petrópolis demorou mais do que esperávamos por conta do congestionamento, no topo da serra tentamos um retorno e acabamos enredados num engarrafamento ainda maior, parando a Formosa diversas vezes no meio da pista.


Com a noite chegando e o trânsito aumentando, decidimos procurar pouso na primeira cidade à frente: Dois Irmãos (RS).

Na manhã de segunda-feira, Dois Irmãos amanheceu ensolarada e quente: já fazia 26 °C nas primeiras horas. Despedimo-nos e retomamos a BR-116 rumo ao sul, agora com trânsito mais fluido.

Ao atravessarmos a capital gaúcha, Porto Alegre, cruzamos a Nova Ponte do Guaíba e seguimos pela BR-116 passando por Guaíba e Sentinela do Sul (RS), onde paramos para almoçar pamonha e descascar algumas nozes-pecã guardadas nos alforjes. Pequenas refeições assim, feitas na beira da estrada ou em pontos simples, costumam ficar entre as melhores lembranças de uma viagem de moto.

Com o estômago satisfeito seguimos pelas longas retas sob forte calor. A partir de Camaquã a pista, que vinha sendo de via simples, tornou-se duplicada, e ao passar por Cristal nos deparamos com uma praça de pedágio que, para nossa alegria, motos eram isentas da tarifa \o/ o que sempre é um alívio para o bolso e para a fluidez da viagem.




Viajar de moto dá essa sensação de liberdade: o contato direto com o ambiente e a surpresa das mudanças repentinas de clima e paisagem.



Foi justamente o clima que nos pregou uma peça próximo a São Lourenço do Sul (RS): num espaço de poucos quilômetros o calor forte deu lugar a uma névoa densa acompanhada por um vento gelado. Em questão de minutos estávamos suando debaixo do equipamento e, logo em seguida, quase congelando.



Paramos para fechar as entradas de ar das jaquetas e vestir uma segunda pele, pequenos ajustes que fazem toda a diferença no conforto e na segurança em estradas longas. Recuperados, tocamos a BR-116 até o fim do dia, quando chegamos a Pelotas com tempo nublado e a temperatura na casa dos 13 °C.

Pelotas (RS), conhecida como a “Princesa do Sul”, é também famosa pelos doces de tradição, receitas coloniais e confeiteiras históricas que agregam identidade à cidade.

À medida que procurávamos um local para passar a noite, uma garoa fina começou a cair. O ar carregava o cheiro de chuva e padaria, e a sensação era de que uma visita aos doces locais valeria a pena, será que resistiremos? (Cenas para o próximo capítulo, ou melhor, próxima postagem.)

Acima a imagem do mapa com o trajeto percorrido entre São Leopoldo (RS) e Pelotas (RS), passando por Nova Petrópolis (RS).
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