Centro histórico de Guarapuava, Paraná
O centro histórico de Guarapuava, Paraná, guarda uma história surpreendente e reúne construções que ajudam a contar a trajetória da cidade, como o Solar Casa do Visconde de Guarapuava e a Catedral e Santuário Diocesano Nossa Senhora de Belém. Além do patrimônio histórico, Guarapuava também encanta pelos seus espaços de lazer, como o Parque do Lago e a lendária Lagoa das Lágrimas.

Após vencer mais de 400 curvas em menos de 100 quilômetros pela Rota Cerro do Leão, chegamos à BR-277, já em Guarapuava, o maior município do Paraná em extensão territorial, com mais de 3 mil km².

Cascata Rio das Pedras
Bastaram alguns quilômetros pela rodovia federal, seguindo sentido oeste, até alcançarmos a Cascata Rio das Pedras, que fica praticamente às margens da estrada.

Aproveitamos para estacionar a Formosa, nossa Harley-Davidson Heritage Softail Classic 2014, tendo a Cascata Rio das Pedras ao fundo, e registrar o momento com algumas fotos.
Informações da Cascata Rio das Pedras
A Cascata Rio das Pedras é uma queda-d’água natural com cerca de 10 metros de altura e acesso fácil. Ela está localizada às margens da BR-277, no km 330, a poucos quilômetros do perímetro urbano de Guarapuava, no Paraná.
Localização
Rodovia BR-277, Km 330 – Boqueirão
Guarapuava – Paraná, Brasil
Contatos
Telefone: (42) 3142-1480
Horários de funcionamento
- Todos os dias: 24 horas
Recomendamos verificar, antes da viagem, as tarifas, os dias e os horários de funcionamento, pois essas informações podem sofrer alterações a qualquer momento.
Valores de ingresso
- Público em geral: Gratuito
Tempo de visita
- 30 minutos
Com o céu azul e o forte calor, caminhamos até a base da cachoeira por uma escadaria com corrimão e poucos degraus.

A pequena queda-d’água tem aproximadamente 10 metros de altura e é cercada por muitas árvores, entre elas várias araucárias, o tradicional pinheiro-do-paraná.

Na sequência, encontramos um local à sombra, onde nos sentamos por alguns minutos para descansar e saborear algumas bergamotas.
Antes de ir embora, seguimos pela trilha de terra batida que leva até o alto da cachoeira. Lá de cima, contemplamos a calmaria do rio, cujas águas logo despencariam pelo paredão rochoso.

Por falar em natureza, Guarapuava se destaca pela riqueza de suas paisagens, que incluem mais de 100 cachoeiras já catalogadas pelo município!
Essa impressionante abundância de quedas-d’água está diretamente relacionada ao relevo e à geografia local.

Guarapuava está localizada no centro-sul do Paraná, a cerca de 250 quilômetros de Curitiba, mais precisamente no Terceiro Planalto Paranaense, também conhecido como Planalto de Guarapuava, a maior unidade geomorfológica do estado.

A vegetação original predominante é a Floresta Ombrófila Mista, a chamada Mata de Araucárias, com belos remanescentes preservados e áreas destinadas à proteção ambiental.

O relevo apresenta ondulações suaves, intercaladas por vales e escarpas, enquanto a altitude varia entre 850 e 1.300 metros, com média de aproximadamente 1.120 metros na sede urbana.

Essas características ajudam a explicar o clima subtropical úmido de Guarapuava e fazem da cidade uma das mais frias do Paraná, com ocorrência frequente de geadas durante o inverno e até registros históricos de neve.

Da Cascata Rio das Pedras foram cerca de 20 minutos até chegarmos ao centro da cidade.
Por lá, procuramos um hotel para tirar as pesadas jaquetas de couro, vestir uma roupa mais leve e, então, iniciar nossa caminhada pelo centro histórico de Guarapuava.

Começamos nossa exploração pelo coração da cidade, passando pela arborizada Praça 9 de Dezembro, localizada em frente ao Santuário e Catedral Nossa Senhora de Belém.

O cenário ali revela um enorme contraste: de um lado, o Templo Histórico, antiga Igreja Matriz de Guarapuava, com seu charmoso estilo barroco e rococó, do outro, a moderna e imponente Nova Catedral Diocesana Nossa Senhora de Belém.

Como a entrada principal da antiga Igreja Matriz de Guarapuava estava aberta, decidimos entrar para conhecê-la. Assim que passamos pela porta, ficamos boquiabertos.
Informações da Catedral e Santuário Diocesano Nossa Senhora de Belém
O complexo religioso da Catedral e Santuário Diocesano Nossa Senhora de Belém reúne, lado a lado, o Santuário Diocesano, antiga Igreja Matriz de Guarapuava, construída em 1841 com traços barrocos e rococó, e a atual Catedral, projetada em 1998 e marcada por um estilo moderno.
Localização
Rua Visconde de Guarapuava, 236 – Centro
Guarapuava – Paraná, Brasil
Contatos
Telefones: (42) 3623-1282 | (42) 98871-3889
Horários de funcionamento
- Segunda a sexta: das 8h às 11h30 e das 13h às 17h30
- Sábado: das 8h às 12h
Recomendamos verificar, antes da viagem, as tarifas, os dias e os horários de funcionamento, pois essas informações podem sofrer alterações a qualquer momento.
Valores de ingresso
- Público em geral: Gratuito
Tempo de visita
- 30 minutos
O teto de madeira e as paredes internas da histórica Catedral Nossa Senhora de Belém são delicadamente ornamentados com afrescos e pinturas sacras.

Durante nossa passagem pelo templo, o espaço passava por um processo de revitalização, o que nos permitiu acompanhar de perto o trabalho da artista plástica Maria Fonseca, responsável pela restauração das pinturas e elementos decorativos do interior.
Nascida em Fortaleza (CE) e especialista em arte sacra e iconografia bizantina, ela possui mais de 25 anos de trajetória dedicados à conservação e restauração dessa tradição artística.

História da Catedral Nossa Senhora de Belém
A construção da antiga Igreja Matriz de Guarapuava teve início em 1841. Sua planta estrutural foi desenhada pelo primeiro pároco da cidade, Francisco das Chagas Lima, mais conhecido como Padre Chagas.
Como a obra foi erguida com o esforço e as doações da comunidade local, os trabalhos avançaram lentamente e levaram cerca de 40 anos, sendo concluídos apenas na década de 1880.

O altar-mor foi construído por dois padres vindos de Minas Gerais. A pintura, porém, só foi realizada em 1922 e, assim como a arquitetura, apresenta características dos estilos barroco e rococó.

Pouco depois, na década de 1930, foi necessário ampliar os fundos da igreja. Essa parte ainda pode ser identificada atualmente pelos tijolos deixados à vista.

Em 1966, a Igreja Nossa Senhora de Belém passou a ser Catedral Diocesana.
O primeiro bispo de Guarapuava foi Dom Frederico Helmel. Quando faleceu, seu corpo foi sepultado dentro do templo, onde permanece até hoje.

Onze anos depois, em 1977, surgiu um movimento favorável à demolição da Catedral. A iniciativa, porém, encontrou resistência entre famílias tradicionais da cidade e parte da população, que se mobilizaram para impedir que a proposta fosse adiante.

Lenda da Serpente de Guarapuava
É justamente nesse contexto que aparece uma lenda local. Segundo a tradição, uma enorme serpente repousaria sob o solo guarapuavano, com a cabeça debaixo da Catedral e a cauda na Lagoa das Lágrimas.

Há diferentes versões sobre o que aconteceria caso a criatura despertasse. Em uma delas, a destruição da Catedral poderia provocar o despertar da grande cobra, que, enfurecida, seria capaz de destruir toda a cidade com um único movimento.

Pelo sim, pelo não, a população preferiu preservar a antiga construção e buscar uma alternativa para acomodar o crescente número de fiéis.

A Nova Catedral Diocesana Nossa Senhora de Belém
Na década de 1990, começaram os estudos para a construção de uma nova Catedral no mesmo conjunto religioso, preservando o templo histórico. Em 1998, foi realizado um concurso para a escolha do projeto arquitetônico.
O trabalho vencedor foi desenvolvido pelo arquiteto Paulo Ernesto Siqueira Martins, com um conceito que representa o Espírito Santo de asas abertas sobre Guarapuava, sem ofuscar a beleza e a importância histórica da antiga igreja.

As obras tiveram início no ano 2000 e se estenderam por mais de duas décadas. Embora ainda não estivesse totalmente concluída, em 2021 a nova Catedral passou a acolher plenamente as principais funções da Diocese e a celebrar suas missas solenes.

Com isso, a nova igreja assumiu a função de Catedral Diocesana Nossa Senhora de Belém, enquanto a antiga construção, carinhosamente conhecida como “Catedral Velha”, recebeu uma nova missão: tornou-se o Santuário Diocesano Nossa Senhora de Belém.

As obras da Catedral Nossa Senhora de Belém começaram em 1841, mas a história da igreja é anterior à construção do templo.
A Paróquia Nossa Senhora de Belém foi criada em 11 de novembro de 1818, por Alvará Régio de Dom João VI.
Para compreender melhor essa história, é preciso voltar um pouco no tempo e conhecer o contexto da região naquele período.

Ocupação dos Campos de Guarapuava
A história da ocupação dos Campos de Guarapuava remonta ao período colonial.
Pelo Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, aquelas terras pertenciam oficialmente à Espanha, na prática, porém, a Coroa Espanhola nunca conseguiu estabelecer ali uma presença efetiva.
A reviravolta decisiva ocorreu quando os bandeirantes paulistas destruíram as reduções jesuíticas do Guairá. Após o conflito, a região passou a ser conhecida como “sertão bravio”, permanecendo virtualmente isolada por praticamente um século.

Foi somente em 1770, com as Expedições do Tibagi e as incursões comandadas por Afonso Botelho, que os portugueses passaram a explorar de maneira mais sistemática os Campos de Guarapuava.
Naquela época, a região conhecida como Campos de Guarapuava abrangia uma área muito maior do que o município atual. O território iniciava-se no Rio dos Patos (Ivaí) e estendia-se até o Rio Paraná. Daí, avançava em direção a Corrientes, na atual Argentina, alcançava o Rio Uruguai e seguia pelas fronteiras dos Campos de São João até Porto União, às margens do Rio Iguaçu.

As primeiras incursões, entretanto, não resultaram em uma ocupação permanente.
Além da distância dos núcleos já estabelecidos, havia um obstáculo natural que dificultava enormemente o avanço para o interior: a Serra da Esperança.

Serra da Esperança
A Serra da Esperança é uma importante escarpa geológica da Serra Geral, localizada na região da Bacia do Paraná.
Seu relevo marca a transição entre o Segundo e o Terceiro Planalto Paranaense, criando uma espécie de fronteira natural entre os Campos Gerais e o planalto de Guarapuava.

Para quem atravessava o território nos séculos XVIII e XIX, superar aquele desnível exigia muito mais do que disposição.
Era necessário abrir picadas, vencer encostas, transpor áreas de mata e construir passagens capazes de suportar o trânsito de tropas, gado, carroças e mantimentos provenientes de Curitiba e dos Campos Gerais.
A própria paisagem, portanto, funcionava como uma barreira à penetração para o oeste. Mas havia ainda outro fator que tornava a travessia especialmente perigosa: a bravura e resistência dos povos originários.

A bravura dos Kaingang
Antes da chegada dos portugueses, os extensos campos naturais entremeados por matas de araucária eram ocupados tradicionalmente por povos Jê do Sul, sobretudo os Kaingang.
Os grupos locais eram identificados pelos colonizadores como Camés, Votorões e Dorins ou Cayeres.

Profundos conhecedores dos caminhos, vales e desfiladeiros, esses povos dominavam o território e utilizavam suas características naturais em estratégias de defesa.
Para os aventureiros que tentavam avançar pelas encostas, a dificuldade do terreno podia se transformar em uma vulnerabilidade diante de ataques surpresa.

Os Kaingang possuíam uma organização social complexa e uma cultura profundamente ligada ao ambiente em que viviam.
A caça, a coleta do pinhão e o aproveitamento dos recursos oferecidos pelos campos e pelas florestas faziam parte de seu cotidiano. Eles conheciam aquele espaço como Koran-bang-rê.
Assim, durante décadas, a combinação entre o relevo acidentado, a ausência de caminhos estruturados e a resistência dos habitantes originários dificultou o estabelecimento definitivo dos portugueses.

A chegada da Família Real
O cenário começou a mudar no início do século XIX, especialmente após a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808.
O Príncipe Regente Dom João adotou uma política mais agressiva em relação aos povos indígenas considerados “hostis”, autorizando ações militares, a chamada “guerra justa” e iniciativas de catequização e aldeamento.

Ao mesmo tempo, aumentava a procura por novas áreas destinadas à criação de gado e ao cultivo da terra.
Os Campos Gerais já apresentavam ocupação significativa, enquanto as extensas pastagens naturais de Guarapuava despertavam interesse para a expansão da pecuária, atividade ligada ao abastecimento do mercado paulista e às rotas do tropeirismo.

Havia, ainda, uma questão estratégica. Em meio às disputas entre Portugal e Espanha, garantir uma presença efetiva no sul era fundamental para consolidar os limites da América Portuguesa e dificultar possíveis avanços vindos do Paraguai ou da região de Buenos Aires.
Nesse contexto, ganhou importância o princípio do uti possidetis, segundo o qual a posse de determinado território estaria relacionada à sua ocupação efetiva.
Estabelecer moradores, criar núcleos permanentes e assegurar a circulação de pessoas e mercadorias tornou-se, portanto, uma questão de interesse militar e territorial.

A Real Expedição de Conquista e Povoamento dos Campos de Guarapuava
Foi nesse cenário que Dom João assinou, em 1808, uma Carta Régia autorizando ações ofensivas contra os Kaingang que resistissem ao avanço português.
Nascia, assim, a Real Expedição de Conquista e Povoamento dos Campos de Guarapuava, reunindo objetivos militares, territoriais e de colonização.

A organização ficou sob a autoridade de Antônio José de Franca e Horta, governador da Capitania de São Paulo.
O comando coube ao Tenente-Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal, militar de origem portuguesa radicado no Brasil.

Também integrava a comitiva o Padre Francisco das Chagas Lima, encarregado da assistência religiosa e posteriormente envolvido nas iniciativas de catequese e aldeamento.
O contingente reunia soldados da milícia, técnicos, civis interessados em obter terras e pessoas enviadas ao degredo, prática utilizada naquele período como forma de punição e também de povoamento de áreas consideradas perigosas ou isoladas.

A chegada aos Campos de Guarapuava
A expedição começou no Porto de Santos, em julho de 1809. Depois de desembarcar em Paranaguá, o grupo seguiu até Curitiba, onde se concentrou antes de iniciar o deslocamento por terra.
A marcha teve início em agosto daquele ano. Em vez de depender principalmente do Rio Iguaçu, como ocorrera em incursões anteriores, os integrantes precisaram abrir passagens, derrubar trechos de mata e erguer pontes para prosseguir rumo ao interior.

O percurso revelou-se extremamente difícil. Foram necessários praticamente dez meses para atravessar a floresta e superar a Serra da Esperança.
Em seu diário, o Padre Chagas relatou os contratempos enfrentados ao longo do caminho: chuvas torrenciais, frio rigoroso, escassez de alimentos e surtos de doenças que atingiram diversos integrantes da comitiva.

Depois de meses de marcha, a vanguarda finalmente alcançou os campos centrais em 17 de junho de 1810.
A data coincidia com a celebração da Santíssima Trindade no calendário católico. Por esse motivo, após a celebração de uma missa, o local recebeu o nome de Campos da Trindade.

O Fortim do Atalaia
A primeira providência para assegurar a permanência dos recém-chegados foi de caráter militar.
Sob as ordens de Diogo Pinto, os homens ergueram o Fortim do Atalaia, na área que hoje corresponde ao distrito de Palmeirinha.
A denominação fazia referência à posição elevada construída no local, de onde uma sentinela conseguia observar uma extensa área dos campos e identificar a aproximação de possíveis ameaças.

Feito com troncos de madeira e protegido por valas, o pequeno reduto tornou-se o primeiro ponto de apoio permanente dos portugueses e serviu como base para o avanço que, anos mais tarde, contribuiria para o surgimento de Guarapuava.
A presença dos recém-chegados, porém, não encerrou os conflitos. Pouco depois da instalação, começaram os ataques e cercos promovidos pelos Kaingang.

As armas de fogo davam aos soldados uma vantagem considerável diante dos arcos e flechas utilizados pelos guerreiros indígenas.
Após meses de confrontos, entre períodos de tensão, vigilância e violentas investidas, as tropas portuguesas conseguiram vencer a resistência dos Kaingang.

A disputa pelo local da futura cidade
O plano original de Diogo Pinto de Azevedo Portugal não previa a fundação da cidade onde ela se encontra atualmente.
O tenente-coronel pretendia estabelecer o núcleo urbano mais ao sul, nas proximidades do Pontão das Estocadas, no território que hoje corresponde ao município de Pinhão, ou simplesmente manter o crescimento colonial concentrado no entorno do Fortim do Atalaia.
Do ponto de vista militar, o fortim oferecia segurança e ocupava uma posição estratégica.

O Padre Francisco das Chagas Lima tinha uma visão diferente. Para ele, os arredores da fortificação eram úmidos, acidentados e pouco favoráveis à expansão agrícola.
Além disso, o sacerdote pretendia afastar a população civil e seu projeto de aldeamento dos indígenas da forte e violenta influência direta das tropas militares.
A grande oportunidade surgiu em 1818. Durante uma viagem oficial de Diogo Pinto, Padre Chagas, que já havia articulado com o bispo de São Paulo e obtido um Alvará Real autorizando a criação da paróquia, decidiu agir.

Unindo-se ao comandante interino da expedição, Antônio da Rocha Loures, organizou por conta própria a mudança do núcleo de ocupação. Seguiu cerca de nove quilômetros ao norte do Fortim do Atalaia, onde encontrou um terreno plano e amplo, ideal para o traçado de um novo povoado.
Foi ali que o padre definiu as primeiras demarcações, escolheu o quadrilátero central e lançou as bases para a construção da Capela de Nossa Senhora de Belém. Em 9 de dezembro de 1819, Padre Chagas e Rocha Loures lavraram o Formal de Criação da Povoação e Freguesia.

Quando Diogo Pinto retornou, a decisão já estava consumada: o centro político e religioso havia sido deslocado pelas mãos do sacerdote, consolidando a fundação do núcleo urbano que daria origem à atual Guarapuava.
Visitando o antigo Solar Casa do Visconde de Guarapuava que descobrimos boa parte dessa história.
Informações do Museu Municipal Visconde de Guarapuava
Instalado no antigo Solar Casa do Visconde de Guarapuava, construído por volta de 1841, o Museu Municipal Visconde de Guarapuava preserva importantes registros da formação econômica, social e política do interior do Paraná ao longo do século XIX.
Localização
Rua Visconde de Guarapuava, 288 – Centro
Guarapuava – Paraná, Brasil
Contatos
Telefones: (42) 3626-2426 | (42) 3142-0763
Horários de funcionamento
- Segunda a sexta: das 8h às 11h30 e das 13h às 17h
Recomendamos verificar, antes da viagem, as tarifas, os dias e os horários de funcionamento, pois essas informações podem sofrer alterações a qualquer momento.
Valores de ingresso
- Público em geral: Gratuito
Tempo de visita
- 45 minutos
Hoje, o casarão abriga o Museu Municipal Visconde de Guarapuava e preserva importantes registros da formação econômica e política do interior paranaense no século XIX.

Por lá, fomos recebidos pela Patrícia, coordenadora do museu, que compartilhou conosco informações, relatos e curiosidades que nos ajudaram a compreender o surgimento e o desenvolvimento de Guarapuava.

Quem foi o Visconde de Guarapuava?
O casarão e o título de nobreza que deu nome a ele estão diretamente ligados a um dos personagens mais influentes de Guarapuava naquele período.
O proprietário da casa era Antônio de Sá Camargo (1807–1896), um rico pecuarista nascido em Palmeira. Por volta de 1828, mudou-se para a região de Guarapuava, onde construiu uma grande riqueza por meio da criação de gado.

Ao longo da vida, recebeu os títulos de Barão, em 1870, e, dez anos depois, de Visconde de Guarapuava, ambos concedidos pelo Imperador Dom Pedro II.
As honrarias estavam relacionadas à sua atuação na vida pública (foi deputado e vice-presidente da Província do Paraná) e também ao apoio financeiro e político prestado ao governo imperial durante a Guerra do Paraguai.

O casarão e o Museu Municipal
O solar foi construído por volta de 1841, utilizando alvenaria de pedra e telhas de barro, em uma arquitetura de características coloniais luso-brasileiras.

A obra contou com o trabalho de pessoas escravizadas, parte importante da história que também permanece registrada no espaço.

Localizado no centro da cidade, ao lado da Praça 9 de Dezembro, o casarão foi a residência onde o Visconde de Guarapuava viveu seus últimos anos e faleceu, em 1896.

Nos fundos do terreno ainda resistem as ruínas de uma antiga senzala de pedra, um vestígio que revela outra face do passado do imóvel e convida à reflexão sobre o período da escravidão no atual território paranaense.

Transformado em museu em 1948, o espaço reúne um acervo que remonta à década de 1840, com mobiliário, utensílios, vestimentas e documentos que ajudam a contar a transformação de Guarapuava, desde os primeiros tempos da antiga vila até a cidade dos dias atuais.

Em 1974, o Museu Municipal Visconde de Guarapuava tornou-se o primeiro bem de Guarapuava tombado pelo Patrimônio Cultural do Estado do Paraná, medida que ajudou a preservá-lo e evitou sua demolição.

Por que Nossa Senhora de Belém?
Talvez você esteja se perguntando por que a igreja que deu origem à história religiosa de Guarapuava recebeu o nome de Nossa Senhora de Belém, também adotado como denominação oficial do povoado.
A escolha de Nossa Senhora de Belém está associada a duas explicações: uma de caráter oficial e outra ligada à tradição popular.

A devoção a Nossa Senhora de Belém era muito forte entre navegadores e militares portugueses. O próprio Dom João VI havia assinado o Alvará Régio que autorizara a criação de uma paróquia sob essa invocação.
Padre Chagas, formado dentro da tradição religiosa de seu tempo, teria escolhido a santa para abençoar o novo núcleo civil da colônia e protegê-lo diante dos perigos do sertão.

A lenda do Rio das Mortes
Outra versão, de caráter popular e profundamente enraizada na cultura local, conta que, por volta de 1818, uma comitiva que transportava famílias e uma imagem de Nossa Senhora de Belém (trazida de Portugal) foi alvo de uma violenta emboscada dos indígenas Camés.
O combate aconteceu às margens de um rio da região e foi tão devastador que muitas pessoas perderam a vida ali, dando origem ao nome Rio das Mortes.

Entre os sobreviventes estava Laura Rosas de França Rocha, esposa do famoso Brigadeiro Rocha. Durante o ataque, ela foi atingida por uma flecha na perna, fazendo com que seu cavalo se assustasse e disparasse sem rumo pela mata.
No ápice do desespero, Laura agarrou-se à imagem de Nossa Senhora de Belém (uma relíquia que havia ganhado de sua mãe) e fez uma promessa fervorosa: construiria uma capela no local exato onde o animal conseguisse parar em segurança.
Diz a lenda que o cavalo parou exatamente onde hoje se ergue a imponente Catedral de Guarapuava.

Quando Guarapuava passou a se chamar Guarapuava?
A mudança oficial e administrativa ocorreu em 21 de março de 1849, quando o governo elevou o povoado à categoria de vila, concedendo-lhe autonomia política.
A lei de criação estabeleceu a denominação de Vila de Guarapuava, enquanto a sede urbana continuou vinculada à Freguesia de Nossa Senhora de Belém.

Mais tarde, em 12 de abril de 1871, o núcleo foi elevado à categoria de cidade, consolidando definitivamente a denominação Guarapuava.
A memória de Nossa Senhora de Belém, entretanto, permaneceu profundamente ligada à história local. Além de dar nome à antiga igreja matriz, a padroeira também está representada na bandeira de Guarapuava, cuja estrela brilhante faz referência à Estrela de Belém.

Por que Guarapuava?
A origem do nome Guarapuava não é consensual entre os estudiosos. Existem diferentes interpretações etimológicas e relatos históricos sobre a denominação adotada para os campos da região.
Segundo a Prefeitura Municipal de Guarapuava, o termo teria origem no tupi-guarani: guará, associado ao lobo, mais especificamente ao lobo-guará, animal bastante comum nos campos locais, e puava, que significa bravo. Dessa interpretação surgiu o conhecido apelido de Guarapuava: a “Terra do Lobo Bravo”.

Há, porém, outras explicações baseadas em diferentes interpretações de palavras indígenas. Uma delas relaciona guará a lobo, pu a barulho ou rumor e aba a lugar, resultando na ideia de “lugar onde se ouve o uivo dos lobos”.
Outra possibilidade associa o termo a uma expressão relacionada ao “lugar onde se caçam guarás”, enquanto uma terceira interpretação aproxima a denominação de palavras indígenas referentes ao rumor produzido por pássaros.

Uma explicação bastante diferente aparece em registros históricos ligados ao Padre Francisco das Chagas Lima. Em sua obra Memória sobre o descobrimento e colônia de Guarapuava, ele menciona que os campos ocupavam uma parte do território que, em tempos anteriores, era conhecido como Guairá.
Segundo um antigo relato atribuído aos sertanistas que percorreram a área, a denominação teria surgido a partir de um episódio curioso envolvendo uma arara.

Conta-se que os homens capturaram a ave e a prenderam pelo pé com uma corrente. Na tentativa de escapar, ela teria tentado romper o elo com o bico, mas, sem conseguir, acabou bicando a própria pata até cortar o membro preso e, assim, teria conseguido fugir.
Os sertanistas então teriam utilizado uma expressão antiga da língua local para designar aquela ave como guará, em oposição ao termo guairá, que significava pássaro pequeno. Já puava estaria relacionado à ideia de uma ave que não voa baixo, mas é uma voadora veloz.
Foi a partir desse episódio e da combinação desses termos que os campos teriam recebido a denominação de Guarapuava.

O primeiro plano urbano de Guarapuava
O projeto elaborado pelo padre Francisco das Chagas Lima, em 1819, é considerado o primeiro plano diretor urbano de Guarapuava.
A cidade não foi construída de maneira espontânea ou desordenada. O sacerdote aplicou normas urbanísticas rígidas trazidas da Coroa Portuguesa por meio das Cartas Régias, definindo uma organização espacial planejada. O projeto adotava uma malha ortogonal, conhecida como traçado em “xadrez”.

Em vez da tradição colonial de vilas que cresciam espontaneamente, com ruelas tortuosas e adaptadas às condições do terreno, Padre Chagas aproveitou o relevo plano para estabelecer vias retas e perpendiculares, inspiradas em conceitos europeus de simetria, higiene e estratégia militar.
Nesse planejamento geométrico, a Capela de Nossa Senhora de Belém foi estabelecida como marco zero da fundação, dando origem à esplanada que hoje corresponde à Praça 9 de Dezembro.

Ao redor desse núcleo, o espaço foi organizado de maneira harmoniosa e hierárquica, com os terrenos mais valorizados destinados aos prédios do poder público e às moradias da elite da expedição colonizadora.
O plano também procurou afastar do centro urbano as moradias dos indígenas sobreviventes e recém-catequizados, numa tentativa de protegê-los dos abusos e da violência das tropas militares.

Padre Francisco das Chagas Lima, portanto, não atuou apenas como líder religioso. Seu planejamento também o coloca entre os pioneiros do urbanismo no interior do Brasil.
Além do planejamento urbano, Padre Chagas estabeleceu normas e padrões para a construção das primeiras casas e definiu regras para a convivência na cidade, entre elas a restrição ao consumo de bebidas alcoólicas.

Lagoa das Lágrimas
Após a enriquecedora visita ao Museu Visconde de Guarapuava, voltamos a percorrer as ruas centrais da cidade e logo chegamos a outro lugar bastante conhecido por quem vive por ali: a Lagoa das Lágrimas.

Curiosamente, a Lagoa das Lágrimas é artificial. Ela foi construída entre 1964 e 1968, durante a gestão do prefeito Nivaldo Krüger, em uma área conhecida como “canhada”, um terreno baixo, semelhante a um vale profundo entre colinas.
Informações da Lagoa das Lágrimas
A Lagoa das Lágrimas é um dos principais atrativos turísticos de Guarapuava e um dos mais tradicionais refúgios urbanos da região central da cidade. O espaço combina lazer e contato com a natureza, oferecendo uma estrutura que inclui pistas de caminhada, parquinho infantil e passeios de pedalinho.
Localização
Rua Professor Becker, 1324 – Centro
Guarapuava – Paraná, Brasil
Contatos
Telefone: (42) 3142-1480
Horários de funcionamento
- Todos os dias: 24 horas
Recomendamos verificar, antes da viagem, as tarifas, os dias e os horários de funcionamento, pois essas informações podem sofrer alterações a qualquer momento.
Valores de ingresso
- Público em geral: Gratuito
Tempo de visita
- 30 minutos
Para criar um espaço de lazer e um novo cartão-postal para a cidade, a prefeitura canalizou e represou águas de nascentes naturais, ou vertentes, que brotavam das fendas de uma laje de pedra existente no local.

O mais interessante é que a famosa lenda que deu origem ao nome “Lagoa das Lágrimas” teria sido criada pelo próprio Nivaldo Krüger, na década de 1960, justamente para dar um ar poético e misterioso ao novo espaço.

A narrativa conta que, séculos antes, os índios Dorin habitavam aquelas paragens e entraram em um violento combate contra seus rivais, os Votorões. O jovem cacique dos Dorin partiu para a batalha, mas acabou morrendo durante o confronto.
Desconsolada, sua noiva permaneceu chorando, inconsolável, no fundo daquela canhada, exatamente sobre a laje de pedra. Teria chorado tanto e por tanto tempo que suas lágrimas penetraram pelas fendas da rocha.
Anos mais tarde, conta-se que foi justamente dali que começaram a brotar as águas cristalinas das vertentes que encheram o lago.

Com o passar das décadas, a história ganhou novas versões populares, com personagens como a índia Arassay e o guerreiro Guairacá, mas a essência do “choro de amor eterno” permaneceu praticamente a mesma.

Revitalizada em 2018, a Lagoa das Lágrimas conta com pista para corrida e caminhada, playground inclusivo, academia da terceira idade, pedalinhos e um amplo gramado cercado por árvores, onde é possível encontrar sombra e descansar.


Parque do Lago
Para encerrar o dia, passamos em um mercado, onde compramos frutas e água gelada, e seguimos até o Parque do Lago, um dos principais cartões-postais de Guarapuava e um dos lugares mais frequentados pelos guarapuavanos nos momentos de lazer.

Informações do Parque do Lago
O Parque do Lago é um dos principais pontos turísticos de Guarapuava e um dos espaços de lazer mais queridos pelos moradores. Cercado por áreas verdes, belas paisagens e opções de recreação, o local é um convite para caminhadas, momentos de descanso e contato com a natureza. Ao fim do dia, o parque ganha um charme especial e proporciona um dos mais belos pôr do sol da região.
Localização
Rua Padre Chagas, 3808 – Centro
Guarapuava – Paraná, Brasil
Contatos
Telefone: (42) 3142-1480
Horários de funcionamento
- Todos os dias: 24 horas
Recomendamos verificar, antes da viagem, as tarifas, os dias e os horários de funcionamento, pois essas informações podem sofrer alterações a qualquer momento.
Valores de ingresso
- Público em geral: Gratuito
Tempo de visita
- 1 hora

Diferentemente da Lagoa das Lágrimas, o espaço não carrega lendas de amor trágico, mas sua história de transformação urbana e social é impressionante e mudou completamente a paisagem daquela região da cidade.


O lago do Parque do Lago também é artificial. Toda a área que hoje compreende o parque, com mais de 100 mil metros quadrados, era originalmente um grande banhado, formado pela confluência de dois arroios: o Arroio do Engenho e o Arroio Pocinho.


A origem do nome é bastante simples: a denominação foi escolhida justamente por causa do grande espelho d’água criado no local.


Oficialmente, o espaço é chamado de Parque do Lago Prefeito Nivaldo Passos Krüger, uma homenagem ao mesmo prefeito que idealizou a Lagoa das Lágrimas e deu o pontapé inicial na transformação daquela região.


Nas décadas de 1950 e 1960, o banhado era uma das áreas mais desvalorizadas e vulneráveis de Guarapuava.

Conhecido pela comunidade pelo apelido de “Buraco Quente”, o lugar sofria com habitações irregulares, falta de infraestrutura e graves problemas relacionados à criminalidade.


A mudança começou entre 1986 e 1987, quando a prefeitura iniciou as obras de engenharia para construir a barragem, represar os arroios e limpar o banhado, dando forma ao lago.


A área de lazer foi estruturada ao longo dos anos e inaugurada oficialmente em 9 de dezembro de 1996, no aniversário da cidade.

O que antes era uma região marginalizada no centro urbano transformou-se em um dos principais espaços públicos de Guarapuava.

O Parque do Lago também se destaca pelas dezenas de cerejeiras asiáticas plantadas ao redor do espelho d’água.


Entre o inverno e o início da primavera, as árvores florescem praticamente ao mesmo tempo, cobrindo a paisagem de rosa e atraindo visitantes que aproveitam para fazer um piquenique, tomar chimarrão, ou simplesmente relaxar sob as flores.


Durante nossa passagem, elas ainda não estavam floridas, mas isso não tirou o encanto do lugar nem nos fez desistir da ideia de tomar um mate às margens do lago.

Com o calor daquele dia, em vez do tradicional chimarrão, optamos por um refrescante tereré acompanhado de frutas frescas.

Passamos algumas horas agradáveis apreciando a paisagem, contemplando a natureza e aproveitando a tranquilidade do lugar.

Embora seja artificial e esteja cercado por avenidas movimentadas, o Parque do Lago funciona como uma espécie de refúgio verde em meio à cidade.

Durante nossa permanência por ali, pudemos observar e ouvir diversas espécies de aves, o que tornava o ambiente ainda mais agradável.

O parque também oferece uma boa estrutura para quem deseja passar mais tempo por ali, com quadras esportivas, pistas para caminhada, ciclovias, pista de skate, academia da terceira idade, equipamentos para musculação, brinquedos para as crianças e banheiros públicos.

O Parque do Lago é também conhecido como um dos melhores lugares para apreciar o pôr do sol em Guarapuava. E, mesmo com muitas nuvens no horizonte, podemos afirmar que o entardecer dali foi mágico.

O céu ganhou diferentes tons, refletidos no enorme espelho d’água, enquanto os chafarizes iluminados acrescentavam ainda mais beleza ao cenário.


Já durante a noite, retornamos ao hotel, onde nos deliciamos com uma saborosa pizza.

Depois de comer, voltamos a percorrer os arredores da Praça 9 de Dezembro, aproveitando a caminhada para fazer a digestão.

Assim encerramos nosso primeiro dia em Guarapuava, no interior Paraná.


Como é de se imaginar, a cidade ainda guarda muitos outros lugares e histórias para descobrirmos. Mas isso é assunto para os próximos posts.

Valeu, piazada! Nos vemos!
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